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Aceitar a felicidade: como aproveitar o presente diante da incerteza

“Eu desfrutara de tanta felicidade ultimamente que imaginava que minha sorte havia passado de seu meridiano, e agora devia declinar." — Jane Eyre

Há pessoas que, mesmo em meio à felicidade, carregam consigo a suspeita de que tudo não passa de um engano. O momento presente é vivido com alegria, mas também com inquietação. É como se a vida tivesse sido generosa demais e, por isso, em breve precisasse “compensar” com uma perda.


Esse paradoxo cria uma experiência curiosa: a felicidade se apresenta, mas já é sentida como incompleta. A cada sorriso, uma sombra; a cada conquista, a certeza de que está prestes a acabar. Vive-se como quem anda em um jardim, mas sempre olhando por cima do ombro, à espera da tempestade.


A estranheza diante da plenitude

Esse modo de viver traduz um traço humano fundamental: a dificuldade de aceitar a transitoriedade. Tudo o que é intenso parece frágil. O instante bom desperta, ao mesmo tempo, prazer e melancolia — prazer por estar sendo vivido e melancolia por já carregar em si o germe do fim.


Essa percepção não é patológica; é sinal da consciência do tempo. Ao contrário dos animais, sabemos que os momentos não se repetem. E essa consciência, ainda que nos permita valorizar a vida, pode também se tornar prisão.


A felicidade como suspeita

Por trás do medo de perder está uma suspeita silenciosa: “Não mereço isso”. O presente feliz é visto como algo fora do lugar, como se fosse preciso pagar por ele em algum momento. Surge, então, uma espécie de vigilância constante: em vez de repousar na experiência, a mente se adianta ao futuro, procurando indícios do declínio.


Mas o que se encontra nessa busca não é a verdade sobre o que virá — é apenas a projeção da nossa ansiedade. E, nesse processo, o presente se dissolve, transformando-se em recordação antes mesmo de ser vivido.


Olhos que se encontram, gestos que passam: a vida se constrói em instantes que não voltam.
Olhos que se encontram, gestos que passam: a vida se constrói em instantes que não voltam.

Viver apesar da impermanência

A alternativa não é se convencer de que a felicidade vai durar para sempre — isso seria negar a realidade. A questão é outra: como se permitir vivê-la apesar de sua impermanência?


Talvez a saída esteja em acolher o caráter transitório da vida como parte da própria beleza da experiência humana. O instante é valioso justamente porque não se repete; a fragilidade não rouba seu sentido, mas o intensifica.


A curva adiante

Se tudo é passageiro, então também a dor o será. O medo de viver o presente costuma se apoiar na ideia de que o futuro é sempre pior. Mas quem pode garantir? Talvez a próxima curva da estrada traga dificuldades — ou algo ainda mais luminoso do que o que hoje se vive.


É nesse espaço de incerteza que habita a possibilidade de confiança. Não confiança ingênua de que nada dará errado, mas confiança madura de que, qualquer que seja o próximo capítulo, haverá recursos internos para atravessá-lo.


Conclusão

Aceitar a felicidade, sem tentar controlá-la ou aprisioná-la, é também aceitar a própria vulnerabilidade. É viver sabendo que a vida é feita de altos e baixos, mas que nenhum deles define a totalidade do caminho. Talvez, então, o convite seja esse: quando a felicidade aparecer, permita-se habitá-la inteira. Sem medo de que vá acabar, sem suspeita de que seja um erro. Apenas como aquilo que ela é — um presente real, ainda que transitório.



Se esse padrão tem dificultado sua vida, considere iniciar a psicoterapia. Entre em contato conosco para agendar a sua sessão!

 
 
 

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